Multimedalhista do Acre é 1a da família na universidade

 

Andressa Maciel Lima cursa Engenharia Civil na UFAC


Primogênita dos Maciel Lima, de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, Andressa, 19 anos, dá uma resposta incomum ao ser perguntada sobre o momento mais memorável vivenciado com a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). Inesquecível, segundo ela, não foi a primeira, mas a última participação na competição.

 

“Foi como uma despedida para mim. Saber que era a última vez que eu estaria recebendo aquele prêmio, que a partir daquele momento já não faria mais aquela prova de todos os anos e não teria mais a satisfação de participar de algo que impulsionou a minha vida acadêmica por sete anos, me deixava muito triste. Não consegui conter as lágrimas”, conta a universitária.

 

Andressa diz se sentir muito grata pela chance de ter participado da competição, oportunidade que ela aproveitou muito bem. Em todas as vezes em que fez a OBMEP, foi premiada por seu desempenho. Estreou aos 11 anos, no 6º ano do Ensino Fundamental, na Escola São José. Até concluir o Ensino Médio, cursado da Escola Dom Henrique Ruth, foram duas menções honrosas, quatro medalhas de bronze e uma de prata.

 

Ao ingressar na Universidade Federal do Acre (AC), Andressa acrescentou à história da família um capítulo inédito. O pai, Iraldo, interrompeu os estudos no Ensino Fundamental; e a mãe, Marilda, nem chegou a ser alfabetizada.

 

“Ela sempre gostou de matemática, mas a OBMEP foi um incentivo. Não fosse a olimpíada, infelizmente, o sonho dela de entrar na universidade teria sido interrompido. Não temos condições de pagar estudo”, enfatiza Iraldo, pai também de dois meninos, Anderson e Alderlan. O recurso para manter a família vem do trabalho como autônomo. Trabalha com frete e aluguel de brinquedos para festa infantil. “Não tenho uma renda fixa. São bicos”.

 

Assim como o pai, Andressa, atualmente no quarto semestre de Engenharia Civil, avalia que a olimpíada foi um fermento no interesse pela matemática. “Sempre foi apaixonada pela matéria, era algo que fazia por prazer, mas com o passar do tempo essa paixão só foi aumentando. Novos desafios, fórmulas, técnicas, descobertas. Tudo isso tornava interessante o ato de aprender.”

 

Por ter conquistado medalha da OBMEP, ela garantiu bolsa no Programa de Programa de Iniciação Científica (PIC Jr.). A oportunidade, segundo ela, foi fundamental para aprofundar os estudos nas disciplinas relacionadas à área de Exatas. “As aulas presenciais e virtuais contam com professores qualificados que nos motivam a seguir nossa paixão pela matemática, valorizando e reconhecendo nosso desempenho”, avalia.

 

Ao escolher Engenharia Civil, um curso que não é ofertado em Cruzeiro do Sul, Andressa já sabia da dificuldade que teria de enfrentar ao ser aprovada na UFAC. Teria de deixar a cidade natal, que fica a cerca de 10 horas de distância, de carro, de Rio Branco, capital do Acre.

 

Graças a sua trajetória, conseguiu uma bolsa Instituto TIM – OBMEP, uma parceria criada para apoiar financeiramente jovens talentosos recém-ingressos na universidade. As bolsas são ofertadas aos medalhistas da olimpíada que ingressaram em instituições públicas, em dez áreas do saber, entre eles, Engenharia.

 

A experiência na Universidade Federal do Acre ela descreve como “completamente diferente e incrível”. Apesar da rotina cansativa, Andressa já sabe que quer seguir carreira acadêmica.

 

Potencial ela tem, atesta José Ivan da Silva Ramos, professor titular da graduação e pós-graduação em Matemática da UFCA. Como coordenador regional da OBMEP, ele testemunhou o crescimento da estudante ao longo dos anos.

 

“Lembro bem da Andressa recebendo a medalha da olimpíada”, conta, sobre as cerimônias de premiação regionais realizadas no interior do Acre. “O projeto faz diferença. Transforma tudo.”

 

Por ser coordenador do PIC Jr., Ramos nunca perdeu o contato com Andressa, que acabou se tornando sua aluna na disciplina de Álgebra. Ele também é seu orientador na Bolsa TIM.

 

 




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“Andressa é uma profissional. Ela vive praticamente dentro da universidade”, observa o professor, explicando que ela acabou de ingressar, como voluntária, de um projeto de pesquisa que pode tornar a vida de crianças e adolescentes do bairro Preventório mais divertida.

 

A parte prática do estudo prevê a construção de uma cobertura para uma área de lazer de educandário que acolhe crianças e adolescentes sob medida de proteção. Para isso, o grupo vai usar madeira apreendida na região e doada para a UFAC.

 

“A matemática me ensinou bem mais do que operações e contas. Ela me permitiu sonhar e acreditar no meu potencial. Ela me ensinou a importância do conhecimento e o quanto o mundo está aberto a novas possibilidades. Ela foi um instrumento de grande relevância no meu crescimento tanto pessoal, quanto acadêmico. Sou imensamente grata à OBMEP por tudo que conquistei até aqui e por ter me incentivado a continuar a seguir meus sonhos.”