2ª reportagem da série “Personagens que marcaram os 10 anos da OBMEP” é com professora de Uberlândia


Maria Botelho Alves Pena, E.E.Messias Pedreiro, MG

 

 

Na ponta do lápis, a professora Maria Botelho Alves Pena já alcançou aquele número com que muitos brasileiros sonham: os 30 anos necessários para se aposentar. Mas quem disse que esse resultado compensará uma vida dedicada ao ensino? Não mesmo, raciocina a mineira de Monte Carmelo, que transformou a Escola Estadual Messias Pedreiro, de Uberlândia, em uma das campeãs nacionais da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Usando mais o coração do que a lógica, Maria não pretende abandonar as salas de aula tão cedo. Acabou de concluir o mestrado – com uma tese justamente sobre os “causos” da OBMEP – e vai trabalhar como coordenadora das olimpíadas.

- Não faça pergunta difícil – pede a professora, ao ser indagada sobre o que gostaria de fazer após a aposentadoria. – Tenho vontade de fazer algo que não seja ligado à matemática, mas quem disse que eu consigo?

Engraçado é que, aos 17 anos, quando a carreira no magistério ainda era uma promessa no horizonte mineiro, Maria se viu diante de um problema: Letras ou Matemática? Talento tanto para fazer contas quanto para escrever não lhe faltava. A diretora da escola acreditava que ela escolheria o português. Mas a jovem somou suas preferências, subtraiu o gosto pessoal, multiplicou pelas possibilidades de emprego e foi estudar os números na faculdade. Uma opção nota dez. Aos 54 anos, Maria foi premiada em todas as edições da OBMEP, e seus alunos dividem com ela o mérito por cerca de 500 medalhas ou menções honrosas conquistadas em nove edições da Olimpíada.

- Sempre preferi matemática, pela facilidade com que fazia as coisas. Mas gostava mesmo de português - confessa. Faculdade concluída, Maria ingressou no magistério público. Um enorme orgulho para seu José e dona Margarida, que tinham “pouco ou nenhum estudo”. Seu José, hoje com 78 anos, frequentou os bancos escolares por seis meses, em uma sala improvisada pelo pai fazendeiro e na companhia dos filhos dos colonos. Dona Margarida foi até a antiga 4ª série, o que lhe garantiu um cargo de professora, também na fazenda.

- Meu pai nunca frequentou uma escola regular, mas tem um raciocínio matemático lógico incrível – conta Maria, justificando o DNA. – E minha mãe foi professora, apesar de ter estudado pouquíssimo.

Os irmãos de Maria também herdaram o talento para as contas. A irmã é formada em Matemática, mas, cansada dos baixos salários – um professor em final de carreira ganha cerca de R$ 2 mil, por 24 horas semanais –, fez carreira como promotora de eventos. O irmão, concursado do Banco do Brasil, largou o emprego público e montou uma cerâmica.

- Os dois são muitos empreendedores e ótimos com matemática – diz a professora. – Eu fiquei só na sala de aula.

“Só”, mas o tal empreendedorismo característico da família a acompanhou na carreira de professora. Na dura rotina de cativar os alunos para a matemática, ela usa mil e uma fórmulas. Tem grupo de solução de problemas no Facebook, promove aulas aos sábados e organiza encontros entre antigos e atuais estudantes do Ensino Médio da Messias Pedreiro.

- Às vezes recebo alunos no 2º ano do Ensino Médio que não sabem fazer as quatro operações básicas. Quando consigo resgatá-los para o estudo da matemática, o desenvolvimento é assustador. Eles crescem em progressão geométrica - brinca Maria.

Antes de despertar a paixão, Maria precisa vencer o preconceito: ainda hoje, muitos jovens chegam à sala de aula tratando a matemática como um bicho papão. A professora conta que passou por muitas fases do ensino e que sempre se esforçou para fazer a garotada entender que lidar com números não é uma simples questão de decorar a tabuada:

- O papel do professor é quebrar esse tabu. Sempre ouço os pais falarem: “mas matemática é tão difícil”... É uma questão cultural. E essa ideia vai passando de geração em geração. Explico aos jovens que a matemática é para a vida toda. Raciocinar e resolver problemas são ações do nosso dia-a-dia.

Se Maria venceu a guerra do preconceito com centenas de alunas, quase que perdeu uma batalha em casa: a filha única, Malu, de 17 anos, andou flertando com a ideia de fazer faculdade de moda. Mas acabou cedendo ao apelo do sangue e vai tentar engenharia. A mãe jura de pés juntos que não influenciou.

- Não falei nada, porque quando escolhi matemática, meus pais também aceitaram. Respeitei a opinião dela – conta, sem disfarçar um certo orgulho com a nova escolha da filha.

Na escola, Maria também respeita a opinião dos alunos que, apesar dos ótimos resultados nas olimpíadas de matemática, abrem mão de uma faculdade na área de exatas e optam, por exemplo, por medicina. Também aprendeu a aceitar a decisão dos jovens que recusam as bolsas oferecidas por um cursinho de Uberlândia para os destaques da OBMEP. Dona de memória prodigiosa – treinada nos mais de 30 anos às voltas com a resolução de problemas – sabe de cor o que cada um de seus alunos olímpicos está fazendo hoje.

 - Muitos jovens nem vão muito longe nas olimpíadas, mas, ao participar, desenvolvem uma disciplina de estudos que os ajuda em todas as matérias. E facilita demais a conquista de uma vaga na universidade. Tenho alunos que optaram por não fazer as provas da olimpíada, mas não abriram mão de participar dos grupos de resolução de problemas. Cada um que chega à universidade é como uma vitória pessoal para mim – diz ela.

Inconscientemente, a garotada de Uberlândia segue a máxima do Barão de Coubertin, o pai dos Jogos Olímpicos modernos, que imortalizou a frase “O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade”. Esse lema está embutido no sucesso da Messias Pedreiro desde os primórdios da OBMEP.

- Quando fui chamada para cuidar dos alunos que iam disputar as olimpíadas, conversei com o diretor e lhe disse que temia que a criação de um grupo pudesse, de alguma forma, ser vista como uma ação discriminatória, dentro e fora da escola. Ele me disse que isso só iria acontecer se a gente desse mais valor aos prêmios do que a participação em si – lembra Maria. – E é isso o que fazemos. Pouco importa o número de medalhas ou menções honrosas. Todos os anos, fazemos uma festa para homenagear quem participou e não apenas quem se saiu bem.

Outra palavra-chave nessa equação de sucesso é compartilhar. Frequentemente, alunos premiados ou participantes da OBMEP são convidados a contar suas histórias aos atuais estudantes do Ensino Médio da Messias Pedreiro. Muitos moram no exterior, mas não se importam de dedicar um tempinho para a garotada.

- Nada que eu fale vai superar a importância de um jovem chegar aqui e contar para garotos iguais a ele que a matemática o levou a uma faculdade no exterior, a um trabalho bem remunerado, a um destino muito diferente do de milhares de brasileiros, que sofrem para completar os estudos. Facilmente eles entendem que a perseverança na matemática poderá facilitar e muito a vida profissional. E isso não serve apenas para quem tem uma aptidão natural. Muitos desenvolvem o gosto pela matéria, são aplicados no estudo e também chegam lá – afirma a professora.

Para os alunos de Maria, longe, realmente, é um lugar que não existe. 

 

UNIVERSIDADES DO PAÍS E DO EXTERIOR: DESTINO DE MUITOS ALUNOS DA “BOTELHO” 

 

Fazer uma lista de alunos bem sucedidos da Escola Estadual Messias Pedreiro, de Uberlândia (MG), é fácil como somar dois e dois. Independentemente das premiações conquistadas, o passaporte para a vida acadêmica foi a participação na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). A professora Maria Botelho sabe de cor e salteado o destino de cada um dos jovens que passaram por suas salas de aula. E eles retribuem a lembrança e o carinho com elogios que crescem em progressão geométrica.

Carinhosamente chamada de “Botelho”, Maria teve um papel decisivo na formação de jovens como João Paulo Vieira Bonifácio, de 23 anos, engenheiro na ZF Friedrichshafez, uma empresa multinacional da área tecnológica. Filho de um funcionário público e de uma copeira, João Paulo começará o doutorado em Engenharia Elétrica na Alemanha, no segundo semestre. Ele participou da OBMEP em 2005 (menção honrosa) e 2006 (medalha de ouro). Seis anos depois, conquistou uma menção honrosa na Olimpíada de Matemática Internacional para Estudantes Universitários (IMC), na Bulgária.

- A matemática me mostrou que podemos conseguir tudo o que desejamos quando temos força de vontade e nos esforçamos para isso, além de me ensinar a ver o mundo de outra forma, por meio da beleza oculta dos números – filosofa o rapaz. E continua: - A Botelho foi a grande incentivadora da minha carreira olímpica. Em 2005, na cerimônia de premiação da OBMEP, ela me disse: “No ano que vem, você vai trazer um ouro para a escola, né?”. Isso me motivou muito a me dedicar mais à matemática e a me apaixonar pelas olimpíadas – conta João.

Motivação é, por sinal, a palavra-chave dos meninos e meninas que ganharam o mundo após os bons resultados na OBMEP. E isso vale até para os que não optaram pela área de exatas. Leticia Alves, de 17 anos, está começando Medicina na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ganha um dinheirinho com artesanato (faz peças em feltro) e, sem tanto espírito olímpico assim, participou da segunda fase da OBMEP apenas no 3º ano do Ensino Médio, obtendo a medalha de prata.

- Nunca imaginei que eu teria um bom raciocínio para matemática, mas descobri que basta exercitarmos um pouco que o raciocínio começa a fluir melhor – conta a menina, filha de uma técnica de enfermagem e de um administrador recém-formado. – Quando você participa da OBMEP e vê o resultado, é muito bom. E isso é mérito da Botelho, que é uma ótima professora.

Para o engenheiro mecânico Raphael Platini, de 25 anos, funcionário da Embraer e mestrando no ITA, “matemática é tudo”. Em 2006, ele conquistou uma medalha de prata na OBMEP, reforçando sua certeza de que iria seguir uma carreira profissional que envolvesse a matéria.

- A cada dia gosto mais de matemática. A capacidade do ser humano de usar o raciocínio é impressionante. E quando ele usa essa habilidade com a matemática, tudo pode ser transformado. A Botelho sabe o potencial que a matemática tem de transformar a vida das pessoas e batalha para que os alunos percebam isso. É um exemplo de determinação – diz Raphael. 

Potencial realmente não falta, diria Murilo Mendonça Venâncio, de 21 anos, aluno do 9º período de Engenharia Mecatrônica na UFU. Ele participa de um projeto de extensão em robótica, pelo qual disputa competições internacionais. Na OBMEP, a lista de prêmios de Murilo soma duas menções honrosas (2006 e 2007) e duas medalhas de bronze (2008 e 2009). Mas o caminho não foi tão simples assim para esse filho de um vendedor com uma agente de serviços gerais. Apesar de, desde a infância, gostar de fazer contas de cabeça, o rapaz, de repente, descobriu que matemática não era bem aquilo.

- Quando fui fazer a olimpíada pela primeira vez, levei um choque, pois o que é cobrado não tem a ver com habilidade de fazer contas, e sim um raciocínio lógico apurado. Descobri que precisava aprender essa matemática "de verdade" e isso me ajudou a desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de resolver problemas. E são dois pré-requisitos fundamentais para obter bons resultados em qualquer área – afirma Murilo. – Quando ganhei a menção honrosa, a Botelho me avisou que, no ano seguinte, não iria entregar o meu prêmio. Perguntei o porquê, e ela falou: “Ano que vem você vai ganhar uma medalha!”. E foi o que ocorreu.

Às vezes o prêmio surge de outra maneira. Formado em Ciência da Computação pela UFU, Ivo Costa, de 23 anos, fez apenas uma OBMEP – “por incentivo da Botelho” - e conquistou uma menção honrosa. Anos depois, ao disputar uma vaga de emprego na Algar Telecom, contou o episódio. Resultado: levou o crachá para casa.

- Na entrevista, ganhei quilômetros de vantagens sobre meus concorrentes. As grandes empresas estão investindo em jovens com raciocínio lógico matemático desenvolvido, e, naturalmente, esses talentos despontam na OBMEP, na OBM (Olimpíada Brasileira de Matemática) e na OBI (Olimpíada Brasileira de Informática) – explica Ivo, que hoje dedica suas horas livres ao trabalho voluntário como professor em minicursos de programação de computadores na própria Messias Pedreiro. – Se eu não tivesse sido aluno da Botelho, talvez não estivesse onde estou. Eu trabalhava e estudava e, vendo o meu esforço, ela me acompanhava de perto – completa o rapaz, filho da cabeleireira da professora.

Voltar à escola, agora como instrutor, também é a realidade de Bruno Miranda, de 20 anos, um dos integrantes do “Grupo dos Quatro”, junto com Jefferson Magalhães, Augusto César Santos Peixoto e StheffnBorg, todos no 7º período de Engenharia Mecânica na UFU. Em 2011, 2012 e 2013, na semana que antecedeu às provas da Olimpíada, o quarteto atravessou os portões da Messias Pedreiro com a função de ajudar os jovens que se preparavam para a competição. Na OBMEP, Bruno foi menção honrosa em 2006, 2007 e 2008, e medalha de prata em 2009 e 2010.

- Uma lição que aprendi com a Botelho foi que o bom desempenho em uma prova não é questão de sorte e sim de estudo e aplicação.

Menção honrosa em 2007, medalha de bronze em 2009 e 2010, Augusto, filho de um pequeno empresário e de uma professora de educação física, conta que só conheceu Botelho no 2º ano do Ensino Médio, mas rapidamente percebeu que o jeito de ela dar aulas era diferente:

- Sempre me lembro dela falando que em matemática ou na vida sempre existem várias formas de resolver um problema, sendo algumas soluções mais elaboradas e outras surpreendentes de tão simples – diz Augusto. – E ela nunca deixou para trás os alunos com dificuldades. Se necessário, dava aulas além de sua carga horária.

StheffnBorg, de 20 anos, era um desses casos de estranheza com a matemática. Quando chegou ao 2º ano do Ensino Médio, estava convicto de que estudaria Direito. As aulas de Maria Botelho fizeram o rapaz mudar de ideia:

- Ganhei menção honrosa em 2009, mas, em geral, não obtive muito sucesso em termos de desempenho. Porém, aprendi a gostar de matemática e descobri que queria engenharia. Hoje posso dizer com toda certeza que faço o que gosto.

Jefferson Magalhães, de 21 anos, outro integrante do quarteto, nunca teve dúvidas: a matemática sempre fez parte de sua vida. Em 2005 e 2006, levou menção honrosa na OBMEP e foi convidado para participar do Programa de Iniciação Científica Jr. da Olimpíada. Em 2007, fez o PIC novamente. Em 2009, foi medalha de bronze e, em 2010, medalha de prata. Filho de um motorista e uma diarista, Jefferson encontrou na professora o apoio decisivo para superar as dificuldades financeiras da família e conseguir a sonhada vaga na universidade pública.

- Ela me deu livros, me permitiu usar seu computador particular... A Botelho é uma figura marcante na minha vida.

E continua sendo importante para uma nova geração de talentos da matemática. Nathaniel Terra, de 17 anos, começa agora a faculdade de Engenharia Química na UFU. Participou da OBMEP de 2007 a 2013, conquistando duas menções honrosas, uma medalha de bronze e outra de prata. Desde pequeno, gostava de matemática, mas foi no Ensino Médio que descobriu que o estudo das ciências exatas ia muito além.

- A matemática alcança campos muito mais profundos e interessantes do conhecimento humano, e decidi que gostaria de conhecê-los. Por isso, escolhi engenharia. O que aprendi com a Botelho vou levar para a vida toda.

 

FRASES:

 

Professora Maria Botelho:

. “Desde o começo, eu tinha uma coisa na cabeça: valorizar o desempenho e não tanto os prêmios”.

. “Casos de sucesso podem sair da escola pública. Mas os pais, os professores, as autoridades, enfim, todos precisam estar envolvidos no processo”.

. “Os alunos que participam da OBMEP não se limitam a realizar as atividades propostas em sala de aula. Eles formam grupos para estudar, inserem os problemas em suas conversas pelas redes sociais e influenciam irmãos, colegas e outros jovens da escola e até mesmo de seus bairros e da cidade a fazer o mesmo”.

. “O desafio é envolver cada vez mais estudantes, despertar o gosto pela matemática naqueles que acham que não levam jeito para a matéria e oferecer a todos as mesmas oportunidades de crescimento”.

. “Em 30 anos de magistério, passei por diversas fases do ensino. O tempo da decoreba passou. Hoje, os alunos compreendem que matemática é raciocínio, concentração, capacidade de resolver problemas. Lições que levam para a vida toda”.

 

Alunos da Escola Estadual Messias Pedreiro:

. “É possível perceber, nos olhos da Botelho, a paixão pela matemática. Ela é um exemplo de determinação”.

Raphael Platini, engenheiro mecânico, funcionário da Embraer

. “Ter participado das olimpíadas de matemática me ajudou a moldar minhas escolhas profissionais”.

João Bonifácio, engenheiro elétrico, funcionário de uma multinacional na Alemanha

. “Ao contrário de outros professores, a Botelho sempre nos desafiou, apresentando problemas que iam muito além de exercícios chatos e repetitivos. Isso fez diferença”.

Augusto César Santos Peixoto, estudante de engenharia mecânica

. “Certa vez, a Botelho ganhou uma caixa de livros do IMPA e distribuiu entre os alunos, sem se preocupar em separar algum para ela. Ali, entendi o quanto ela amava a matemática”.

StheffnBorg, estudante de engenharia mecânica

. “É impossível estudar com a Botelho e não se apaixonar pela matemática. Na minha vida, foi decisivo. O raciocínio lógico é uma qualidade muito disputada pelas empresas”.

Ivo Costa, analista de desenvolvimento de serviços na Algar Telecom




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