Daniel Drummond de Andrade escreve a própria história
Trineto-sobrinho do poeta mineiro, o estudante de 15 anos é medalhista de ouro da OBMEP e enxadrista
Na família Drummond, as palavras ocupam um lugar especial. Mas, para Daniel Drummond de Andrade, de 15 anos, medalhista de ouro da OBMEP, são os números, os problemas e os tabuleiros de xadrez que contam a história. Trineto-sobrinho de Carlos Drummond de Andrade, o estudante mineiro encontrou na matemática uma forma própria de se desafiar — e, como na literatura, descobriu que as melhores histórias nem sempre seguem o caminho mais fácil.
Carregar o sobrenome Drummond desperta interesse por onde passa. Daniel conta que sua bisavó se casou com um sobrinho do poeta e encara a ligação com naturalidade. "É uma curiosidade divertida, uma carteirada boa."
O medalhista de ouro da 20ª OBMEP 2025 construiu uma trajetória marcada pela vontade constante de ir além. "Minha relação com a matemática foi muito mais de um descobrimento", conta. Com diagnóstico de autismo e altas habilidades, ele encontrou na matemática um espaço onde a descoberta vale mais do que a resposta pronta e, nas olimpíadas científicas, uma oportunidade de testar os próprios limites.
"Sou uma pessoa atípica, tenho altas habilidades, sou autista, então tinha muito mais facilidade que os meus colegas. Minha professora do terceiro ano me passou uma conta mais avançada. Tive dificuldade, mas consegui fazer."
Aquele episódio foi um ponto de partida. Conforme os conteúdos da escola deixavam de representar um obstáculo, Daniel passou a buscar problemas cada vez mais complexos. O objetivo nunca foi apenas acertar, mas encontrar problemas que realmente o desafiassem. "Atualmente, estudo matemática avançada por essa questão do desafio. Sempre foi uma questão de me autodesafiar", afirma.
O gosto pelas olimpíadas começou ainda na infância, inspirado pelo irmão mais velho, também medalhista em competições científicas. "As primeiras olimpíadas foi porque eu vi meu irmão ganhando e queria ganhar também", lembra.
"Tanto eu quanto o meu marido sempre incentivamos os meninos nas diversas áreas do estudo, respeitando sempre a aptidão de cada um. Sempre que a escola oferecia oportunidade, a gente incentivava a participação nas olimpíadas", conta Gabriella Drummond, mãe do medalhista.
Segundo ela, foi observando o percurso do irmão que Daniel passou a sonhar com suas próprias medalhas. "Virou um sonho de também querer ganhar. Desde o sexto ano, ele faz todas as olimpíadas disponíveis e tem conquistado muitas medalhas, o que faz com que ele tenha essa energia, essa alegria, essa vitalidade, porque gosta muito de enfrentar desafios."
Se a matemática ensinou Daniel a buscar desafios cada vez maiores, o xadrez também mostrou lições importantes. Hoje, ele sonha em trabalhar profissionalmente com o esporte e já conquistou resultados expressivos, incluindo uma vitória sobre um mestre nacional. Mas o início não foi fácil.
Daniel começou a jogar após a pandemia, quando um entusiasta do xadrez organizou um evento em sua cidade. A princípio, ele nem queria participar. "Minha mãe falou: 'você tem que sair de casa'. Fui e perdi muito. Aí falei: 'me ensina'."
Pouco tempo depois vieram os primeiros torneios. No primeiro deles, a derrota quase o fez desistir. "Nunca gostei muito de perder. Queria abandonar aquilo, mas meu irmão me incentivou a continuar. No fim, terminei o torneio."
A experiência mudou sua forma de enxergar os desafios e as frustrações. Além da resiliência, o esporte também ampliou sua convivência com outras pessoas. "O xadrez me introduziu a várias pessoas que gostam do que eu gosto e pensam de forma parecida. Fiquei uma pessoa muito mais sociável."
Para Gabriella, esse talvez seja um dos maiores ganhos proporcionados pelas olimpíadas e pelo xadrez. "Como ele está no espectro autista, isso tem sido uma ferramenta de socialização, uma ferramenta de interação. Além de estar em um ambiente com pessoas que compartilham interesses semelhantes, ele desenvolve a confiança de que pode sempre evoluir. A gente respeita as limitações e trabalha com muita intensidade as potencialidades. Isso tem sido muito bacana."