5ª reportagem mostra o trabalho de um casal de professores em uma escola de Ceilândia (DF)


Alessandra e Marcos Paulo, do CEM 09 de Ceilândia

 

 

AMOR, MEDALHAS E OUTRAS CONQUISTAS: PAIXÃO TRADUZIDA EM NÚMEROS NO CEM 9 DE CEILÂNDIA

Amor, substantivo masculino singular. No Aurélio, afeição viva por alguém ou por alguma coisa. No caso dos professores Alessandra Lisboa e Marcos Paulo Barbosa, do Centro de Ensino Médio (CEM) 09 de Ceilândia, a definição cai como uma luva. O amor – e a admiração – de um pelo outro salta aos olhos. E a afeição de ambos pelos números também. O que a matemática uniu, obstáculo algum separa. Em bom português, eles estão mudando a vida de dezenas de garotos de uma região carente da capital federal.

- Não temos patrocínio, nosso trabalho é voluntário. O colégio cede uma sala, já que o projeto conta com todo o apoio do diretor do CEM 09, professor José Gadelha Loureiro. O resto é a dedicação dos alunos – conta Alessandra, criadora do projeto Matemática Todo Dia, que, na 2ª fase da OBMEP de 2013, teve 45 alunos classificados e 25 premiados.
 
O resultado do Matemática Todo Dia fez do CEM 09 um campeão na Olimpíada. Dos 300 participantes do projeto, entre 2007 e 2013, 86 foram premiados na OBMEP. No ano passado, nove conquistaram uma vaga no Programa de Iniciação Científica (PIC). O trabalho de Alessandra e Marcos Paulo contabiliza ainda 60 jovens aprovados em universidades públicas – 58 na Universidade de Brasília e dois na Escola Superior de Ciências da Saúde. E outros 50 estudantes obtiveram bolsa integral do Prouni para fazer o curso superior em faculdades particulares.
 
Ex-alunos do CEM 09, Alessandra e Marcos Paulo resolveram estimular a participação na OBMEP em 2007. Na época, ela era supervisora administrativa e ele dava aulas no Colégio Militar Dom Pedro II, do Corpo de Bombeiros de Brasília.
Alessandra queria fazer algo pelo colégio em que estudou. Marcos Paulo, outro ex-aluno, topou ser voluntário. Em 2007 e 2008, os estudantes conseguiram 14 menções honrosas. Em 2009, a primeira medalha, de bronze. Mas contabilizar o resultado em medalhas ou menções não é a prioridade do Matemática Todo Dia.
 
- Esses jovens ganharam uma chance que jamais teriam. Antes, eles pensavam em fazer o vestibular, passar - quem sabe - para alguma faculdade particular e arrumar financiamento para pagar. Agora, já sabem que vão para a Universidade de Brasília (UnB) – orgulha-se o professor.
 
Não é conto de fadas.  Aos 17 anos, Paulo Victor Reis Moreira já cursa o 2º semestre de Matemática na UnB. Medalhista de bronze na OBMEP 2012, obteve pontuação para a universidade antes mesmo de completar o Ensino Médio. Agora, quer retribuir. Mesmo sabendo que seu talento para as ciências exatas poderiam levá-lo a uma remuneração melhor, planeja se formar e virar professor.
 
- Não adianta termos engenheiros, médicos e advogados se não temos bons professores. A base de tudo é a educação. Por isso, quero me dedicar ao magistério – diz o rapaz.
 
- Como medir a nossa alegria quando escutamos uma história dessas? É a certeza de que fizemos tudo certo – derrama-se Alessandra, que, vez ou outra, precisa enxugar as lágrimas ao contar as histórias de seus pupilos, que se orgulham de dizer que estudam na “Escola de Talentos”.
Na prática, Alessandra e Marcos Paulo levaram para a matemática os ensinamentos do educador Paulo Freire. Usam elementos do cotidiano dos alunos para transmitir as lições. Criaram jogos específicos para o estudo dos números. Assim, aprender geometria, por exemplo, um bicho-papão para gerações de estudantes, é quase coisa de criança. Um tabuleiro representando uma cidade fictícia, carrinhos de brinquedo, dados e lá estão as noções de espaço que muitos quebram a cabeça para entender.
 
- Os jogos servem para transformar a realidade social e cultural do aluno em aprendizado. É uma forma lúdica de desenvolver o raciocínio lógico e espacial – explica Marcos Paulo.
 
Alessandra acrescenta que a metodologia usada pelo projeto alia os jogos lúdicos aos materiais da OBMEP, como os bancos de questões e as provas de anos anteriores.
 
- Usamos os materiais da OBMEP em sala de aula e incentivamos os alunos a assistir em casa aos vídeos postados no site da Olimpíada com a resolução de problemas. É dessa forma que estamos despertando cada vez mais o interesse dos alunos pela matemática, revelando talentos e realizando o sonho de muitos alunos de entrar em uma universidade.
 
No Matemática Todo Dia, alunos das três séries do Ensino Médio trabalham juntos, num esquema de aprendizagem colaborativa. Quem tem mais facilidade na disciplina senta com o colega que aprende mais devagar. Não é à toa que muitos descobrem ainda uma vocação que desconheciam para o magistério. No geral, porém, fica a lição: a união faz a força e ajuda a realizar sonhos. Em 2013, por exemplo, o CEM 09 levou cinco medalhas (uma prata e quatro bronzes) e 20 menções honrosas na OBMEP. Os 25 premiados fazem parte do grupo de 45 estudantes do projeto que fizeram a 2ª fase da Olimpíada.
 
- O mais engraçado é que estamos recebendo alunos que não estudam no CEM 09, mas que querem fazer o projeto. Não dá para recusar. São irmãos dos nossos jovens e também vão ser preparados – orgulha-se Alessandra.
 
Talvez o que mova o casal seja o pensamento de que a trajetória dos dois foi uma exceção. O CEM 09 atende a uma clientela de classe média baixa e muitos alunos moram em áreas de risco. Marcos Paulo, que repetiu o 7º ano do Ensino Fundamental, ao terminar o Ensino Médio serviu na Aeronáutica e entrou para o Corpo de Bombeiros – só então teve condições de fazer faculdade. Já era apaixonado pelos números, mas pouco tinha aprendido: quando prestou o primeiro vestibular, sequer sabia o que era trigonometria. Mesmo assim, foi em frente e passou para Matemática, na UnB. Assim que iniciou o curso, foi convidado a lecionar no Colégio Militar Dom Pedro II.
 
- O estudante brasileiro não tem esse hábito do estudo diário. Educação tem que virar rotina, ao contrário do casamento – brinca o professor. – Essa é a nossa proposta: criar uma rotina de estudos para esses jovens, mas não no sentido repetitivo. Queremos romper a barreira de que a escola pública só oferece o mínimo – afirma.
 
Alessandra também batalhou para se formar. Fez Administração, com especialização em Educação e Tecnologia. Depois, partiu para uma licenciatura em matemática. Sua especialidade? Aprendizagem colaborativa. Em 2006, surgiu a oportunidade de voltar ao CEM 09, como supervisora administrativa. E, todos os dias, uma ideia rondava os seus pensamentos: como dar uma oportunidade aos jovens dali de ir mais longe?
 
- Minha inquietude aumentou quando observei que muitas escolas participavam da OBMEP e a minha não. Pensei em montar um projeto para preparar os alunos, mas precisava de um professor voluntário. Contei para o Marcos Paulo e na hora ele disse que queria ajudar. Funcionou – conta Alessandra.
 
No primeiro ano do Matemática Todo Dia, Alessandra foi de sala em sala, explicando o que era a OBMEP e como essa preparação extra ia funcionar. São dez aulas de raciocínio lógico e resolução de problemas, no turno da noite. Dos 60 alunos que tinham passado na 1ª fase da Olimpíada, 50 apareceram para o projeto. Seis conquistaram menções honrosas.
 
- Num contexto social de vulnerabilidade, é impossível medir o impacto desse tipo de conquista. Nosso primeiro desafio foi justamente fazer os alunos entenderem que eles eram capazes – lembra a professora.
 
Para ajudar na missão, outro grupo de voluntários foi convocado: as famílias dos jovens. Inicialmente, a ideia de permitir que os filhos participassem de um projeto à noite na escola foi vista com certa estranheza, até por questões de segurança. Mas, aos poucos, os pais entenderam a importância daquela proposta e se tornaram aliados dos professores.
 
- Os pais precisam entender que a presença deles é decisiva na educação dos filhos. A escola não consegue dar conta de todo o trabalho sozinha. Quando as famílias participam ativamente da vida escolar, as crianças têm um desempenho melhor – afirma Marcos Paulo.
 
Desde 2011, o Matemática Todo Dia está incluído no projeto pedagógico do CEM 09. Alessandra, que é professora da UnB, ganhou a função de coordenadora olímpica e hoje organiza a participação da garotada em 15 olimpíadas de conhecimento diferentes – os monitores são os próprios alunos. A mobilização transformou a escola num sucesso local: diariamente, pais procuram a direção interessados em conseguir uma das 1,5 mil vagas da escola.
 
- Aprender matemática muda a relação do estudante com o ensino em geral. O raciocínio lógico serve para todas as disciplinas. É raro encontrar alguém que domina os números e não tenha um bom desempenho nas outras matérias – diz Alessandra. – O que os alunos precisam é ter alguém que os estimule a estudar e que mostre que eles são capazes. Quando isso acontece, ninguém segura.
 
HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO MARCAM OS ALUNOS DO CEM 09
 
Herança genética é isso aí: quando os irmãos Luísa Caroline Costa Abreu, de 16 anos, Lucas Mateus Cirino Martins, de 14, e Maiara Cristina Abreu Cirineu Martins, de 12, começam a falar de matemática não tem para ninguém. Luísa, aluna do 2º ano do Ensino Médio, e Maiara, do 7º ano do Ensino Fundamental, foram menção honrosa na OBMEP em 2013. Maiara e Lucas, que cursa o 9º ano do Ensino Fundamental, passaram para a 2ª fase da Olimpíada este ano. As meninas estão no Programa de Iniciação Científica (PIC) há três meses, e, naturalmente, o trio é o orgulho dos pais, um policial militar e uma técnica judiciária. Dos três, só Luísa é aluna do CEM 09. Os irmãos, porém, também participam do Matemática Todo Dia.
 
- Em casa, a gente disputa para ver quem é o melhor, mas só de brincadeira – conta Lucas, lembrando que, apesar da diferença de séries, os irmãos estudam juntos.
 
- As pessoas vivem pedindo para a gente fazer contas. Mas ninguém aqui é nerd. Só gostamos de estudar – acrescenta a caçula Maiara.
 
- Não tenho dúvidas: nós três vamos entrar na UnB. A OBMEP já mudou a nossa vida – aposta Luísa.
 
A jovem quer repetir a história de estudantes como Bruno Souza, de 17 anos, que, após o Ensino Médio no CEM 09, passou direto no vestibular de Física da UnB. No 2º e no 3º anos, ele foi menção honrosa na OBMEP. Detalhe: o rapaz foi campeão da Olimpíada Brasileira de Foguetes e medalhista na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. E também foi aprovado no vestibular de engenharia aeroespacial. Mas escolheu a Física porque quer ser professor.
 
- Lamento que muitas escolhas não valorizem a participação dos alunos nas olimpíadas. Meu Ensino Fundamental foi muito ruim. Quando cheguei ao CEM 09, tudo mudou. Dificilmente eu conseguiria passar para a UnB sem o Matemática Todo Dia - diz Bruno, que planeja uma segunda graduação em Filosofia.
 
Curioso é observar que nem todos os alunos do projeto prosseguem na área de ciências exatas após o Ensino Médio. Lívia Alves da Costa, de 20 anos, três vezes menção honrosa na OBMEP, faz Direito na UnB. Ela conheceu o trabalho dos professores Alessandra e Marcos Paulo em 2009 e, até então, desconhecia sua habilidade com os números. Os professores incentivaram a menina tímida a participar de uma olimpíada de robótica. Lívia foi a primeira colocada em Brasília e a quarta no Brasil, o que lhe valeu um convite para outra olimpíada, só de mulheres, nos Estados Unidos.
 
- Eu tinha potencial, mas não acreditava – lembra a futura advogada. – O incentivo dos professores foi fundamental. Com a matemática desenvolvi o raciocínio lógico, e isso serve para qualquer profissão. Hoje a matemática é um hobby, porque pretendo ser criminologista. Mas não existe conflito entre exatas e humanas: tudo é conhecimento útil – afirma a moça, que é uma das professoras voluntárias do Matemática Todo Dia.
 
Outro professor voluntário é Igor Magri, de 18 anos, que pretende cursar relações internacionais na UnB. Em 2013, foi menção honrosa na OBMEP. No anterior, esteve na Índia, participando do Quanta 2012, uma competição internacional de ciências, matemática, eletrônica e habilidades mentais. A viagem foi um sufoco. O governo distrital de Brasília pagou as passagens, mas os estudantes precisaram se virar para conseguir a hospedagem e a alimentação.
 
- Só tivemos a viagem confirmada oito horas antes do embarque. Mas a gente não podia perder aquela oportunidade. Foi maravilhoso – diz Igor.
 
Passar sufoco é uma realidade que Luan da Cruz Vieira, de 17 anos, aluno do 3º ano do Ensino Médio conhece bem. Ele mora longe do CEM 09, na comunidade Sol Nascente – são 40 minutos de ônibus de casa até a escola – e, por questões de segurança, sua família relutou em permitir que ele participasse do Matemática Todo Dia. No caminho do rapaz, medalha de prata na OBMEP em 2013, ainda surgiria outro percalço: a mãe teve um câncer e ele precisava cuidar dela. Mas amor de mãe supera qualquer barreira e foi justamente ela a maior incentivadora do filho.
 
- Ele era um ótimo aluno, mas parecia que tudo conspirava contra – observa a professora Alessandra. – Insistimos, conversamos com a família e o resultado está aí.
 
- No dia da prova da OBMEP, cheguei atrasado porque não tinha ônibus – rememora o rapaz. – Mas deu certo no fim das contas. Meu objetivo agora é fazer faculdade de Medicina. Mas a professora diz que só vai deixar depois que eu conquistar a medalha de ouro na Olimpíada.
 
A medalha de Ana Carolina Alves de Souza, de 17 anos, também aluna do 3º  ano do Ensino Médio, foi de bronze, em 2013. Valeu como ouro. Afinal de contas, é a coroação de uma carreira olímpica iniciada a duras penas. A garota tímida, que sentava no fundo da sala de aula, mal abria os cadernos e ficava o tempo todo calada, revelou-se um talento para “todas as disciplinas”, como destaca a professora Alessandra. Filha de um motorista e uma dona-de-casa, vai fazer vestibular para Engenharia Química e é uma das mais aplicadas professoras voluntárias do Matemática Todo Dia. Tanto que montou um preparatório para os alunos do Ensino Fundamental, com linguagem adequada à faixa etária. A inspiração? Os irmãos mais novos, Marcos Paulo e Júlio César.
 
- Sem o auxílio dos professores, eu nunca teria tentado disputar uma olimpíada. Achava que não podia, que não era boa o suficiente. Estava errada, né? – indaga, sem disfarçar a timidez.
Sem dúvida, Ana Carolina.




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