Estudante pernambucano (e paraibano) é tema da 10ª reportagem da série OBMEP 10 anos


João Lucas Gambarra, de Quixaba (PE)

 

 

Pela teoria das probabilidades, a chance de João Lucas Gambarra, de 20 anos, gostar de vôlei ou basquete era muito maior. Afinal de contas, com quase dois metros de altura - 1,94 na medida exata - nunca faltaram convites para ele praticar esportes que exigem porte físico. Curiosamente, o rapaz prefere o tênis de mesa, ainda que precise “jogar debruçado”. Nada de excepcional para alguém que “adora contrariar padrões”. Em 2005, ouviu falar da OBMEP e, mesmo sem gostar da matemática que era ensinada na escola, resolveu arriscar. Ganhou uma medalha de prata e virou celebridade na pequena Quixaba, cidade pernambucana com pouco mais de 6 mil habitantes.

- Foi uma surpresa, porque eu não me sentia desafiado pela matemática que aprendia na escola. Fizeram festa e tudo. Outros alunos viram que era possível chegar lá. E eu entendi que, com mais dedicação, teria melhores resultados.

Bota melhores nisso. Além da medalha de prata na primeira edição da Olimpíada, foram cinco medalhas de ouro e um bronze para completar as sete participações na OBMEP. Filho de professores, João Lucas nunca estudou em escola particular, mas passou sem maiores dificuldades para o curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal da Paraíba, onde cursa o 7º período. Nada mal para o menino nascido na pequena Serra Talhada (PE), que passou a infância em Princesa Isabel (PB) e só teve acesso a um ensino de qualidade porque seus pais perceberam a aptidão do menino para os estudos e o matricularam na Escola Tomé Francisco da Silva, em Quixaba, uma referência na região.

- Passei a vida toda cruzando fronteiras. Morava na Paraíba, mas estudava em Pernambuco – lembra ele.
Essa aptidão para os números brotou antes mesmo de João Lucas pisar em uma escola. Bem pequeno, ele se divertia, nos sábados à noite, após a missa, memorizando placas de carro. Se repetisse os números certinho, ganhava sorvete.

- Tomei muito sorvete nessa época – diverte-se o rapaz.

Na escola, João Lucas gostava de todas as disciplinas, até a paixão pela matemática desabrochar por intermédio da OBMEP. A partir daí, as boas notícias foram crescendo em progressão geométrica. O rapaz foi convidado a fazer o Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC-OBMEP) e teve certeza de que ali começava uma caminhada rumo a um futuro promissor. O mais engraçado é ver que, tal e qual o menino que decorava placas para ganhar sorvete, o jovem João Lucas também se vale de um truque mnemônico para listar seus feitos nas olimpíadas.

- Associo às medalhas aos resultados do campeonato brasileiro de futebol – conta ele, torcedor do Fluminense. – De 2006 a 2008, o campeão foi o São Paulo, que também é tricolor. E foram três medalhas de ouro para mim. Em 2009, fiquei com o bronze e o campeão foi o Flamengo. Em 2010, o Flu foi campeão e eu tirei ouro. 2011 era a minha última OBMEP. Eu me prometi conseguir mais um ouro e cheguei lá.

Todas as medalhas foram conquistadas na Tomé Francisco da Silva, onde João Lucas estudou do 1º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Ainda em 2005, quando levou a prata, o menino chegou a dar entrevista para a rádio local. Não para menos. Afinal de contas, era a primeira vez que um estudante da região recebia uma premiação nacional. Muito orgulho tanto para os 22 mil habitantes de Princesa Isabel quanto para os seis mil de Quixaba.

- Fico meio envergonhado de rever essa entrevista. Meu pai gravou, mas não tenho coragem de ouvir – afirma o futuro engenheiro, que, de lá para cá, já precisou encarar outros jornalistas, por conta dos resultados olímpicos.
Ao que tudo indica, a aptidão de João Lucas está no DNA. O pai é sindicalista, radialista e promotor de vendas – além de, em 2011, ter obtido o diploma universitário de educação física. A mãe, formada em História, acaba de se graduar em Direito. A irmã de 17 anos também é ótima aluna.

- Lá em casa, todo mundo gosta de estudar. E meu pai também é ligeiro na matemática. Ele chegou a começar a faculdade, mas parou – afirma.

O empenho familiar acabou ajudando João Lucas a fazer o PIC. As aulas, inicialmente, eram em Caruaru, a 250 quilômetros de casa. Eles saíam de casa às 4h, tomavam café da manhã em um posto de gasolina e seguiam viagem. Enquanto o menino estudava, os pais passeavam pela célebre feira de Caruaru. A partir de 2007, surgiu um polo do PIC na própria Quixaba, para atender aos alunos que, na esteira de João Lucas, vinham acumulando bons resultados na OBMEP.

- A OBMEP muda a vida de muita gente que participa. Passei parte da minha infância e toda a minha adolescência dedicado a ela. Depois, fica difícil desapegar. Quando passava a premiação, eu ficava triste, esperando começar um novo ano de estudos de matemática – recorda.

Não por acaso, João Lucas é um dos criadores da página "Obmep Depressão", no Facebook, “porque até na maior olimpíada do mundo rola uma depressão de vez em quando”, como bem define o texto de apresentação. A página é um sucesso entre os craques da matemática e reúne muitos campeões olímpicos. Por sinal, o futuro engenheiro tem uma penca de amigos espalhados pelo Brasil, a maioria que conheceu em premiações ou nos encontros de estudantes promovidos pela OBMEP.

- Muitos de nós só chegamos à universidade por causa das olimpíadas. No interior do Brasil, a prática é terminar o Ensino Médio e arrumar um emprego. A OBMEP abre uma nova perspectiva, mostra que, com esforço, você realmente pode chegar lá. É só querer.

À faculdade, João Lucas já chegou. Como seus companheiros medalhistas, pensa em fazer mestrado e doutorado. Ele fez dois anos de Programa de Iniciação Científica e Mestrado (PICME) e, hoje, uma vez por mês, dá aulas no PIC como monitor, no polo de Quixaba. “Os aluninhos ficam me aperreando o dia inteiro”, conta ele, sem disfarçar o orgulho por, aos 20 anos, já estar do outro lado do balcão, e a alegria de estar “de volta à OBMEP”.

- É fácil reconhecer o talento. O aluno presta atenção, é rápido nas respostas, tem aquele brilho no olho. Muitos ali, sem dúvida, vão longe. Vejo neles um pouco de mim. E espero que, para eles, a OBMEP também signifique um futuro melhor. Não sei como seria a minha vida sem as olimpíadas – diz o rapaz que, nas horas vagas, anda se distraindo tentando criar um jogo de videogame.
No jogo da vida real, João Lucas já zerou muitas fases.

Sucesso pernambucano

A Escola Tomé Francisco da Silva, em Quixaba (PE), é um caso de sucesso na OBMEP. Em 2014, por exemplo, dos 19 professores de matemática premiados em Pernambuco, quatro eram do colégio, cujos alunos também levaram duas medalhas de prata, oito de bronze e dez menções honrosas. Mas a escola que formou o pentacampeão João Lucas Gambarra não é reconhecida apenas na matemática. Seus resultados em outras avaliações, como o Ideb, o Enem e o Idepe tornaram-na uma referência em toda a região. Em 2012, a Tomé Francisco da Silva foi consagrada como Escola Referência Brasil, no Prêmio Gestão Escolar, promovido pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação.

Localizado na fronteira entre Paraíba e Pernambuco, o colégio tem cerca de 800 alunos, divididos em dois turnos. O alunado é majoritariamente de classe média baixa. Muitos são filhos de agricultores e enfrentam jornadas de até 35 quilômetros para ir e voltar das aulas. O segredo do sucesso? Apesar das dificuldades, os alunos são acompanhados individualmente. Os relatórios de avaliação incluem informações como a participação em sala de aula, a interação com colegas e professores, o número de livros paradidáticos lidos e, naturalmente, as notas. Com isso, qualquer dificuldade enfrentada por um estudante é prontamente detectada e pode ser corrigida.

Se alguém falta mais de cinco vezes seguidas, a família é convocada. Caso haja necessidade, é feita uma visita domiciliar. Com isso, o índice de evasão não ultrapassa 1%. A cada dois meses, pais e professores se reúnem para discutir o desempenho escolar. Todos os professores têm ensino superior e 70% já completaram ou estão fazendo pós-graduação. Sem falar que a maior parte dos estudantes tem aulas de reforço em português ou matemática uma ou duas vezes por semana. Não foi à toa que a Tomé Francisco da Silva serviu de referência para o governo de Pernambuco criar o programa de reforço escolar na rede pública.

- Toda essa motivação torna a Tomé Francisco da Silva uma escola diferente – orgulha-se a educadora de apoio Josilene Quidute. 




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