Personagem deste mês morava em uma pequena cidade do Paraguai quando participou das três primeiras edições da OBMEP e conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata.


Willian Diego Oliveira, de Cruzeiro do Oeste (PR)

 

 

Willian Diego Oliveira, 26 anos, de Cruzeiro do Oeste (PR)

Willian Diego Oliveira, 26 anos, medalhista de ouro na OBMEP 2005 – primeira edição da Olimpíada, nasceu no Paraná, morou no Paraguai e no Mato Grosso do Sul, e hoje está morando e estudando na cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

Mas desde agosto de 2014, ele está no Rio de Janeiro, onde, em princípio, ficará até o final de julho deste ano. Ele veio para o Rio acompanhando seu orientador de Doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus São José do Rio Preto), o búlgaro Dimitar Kolev Dimitrov, que está no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) como professor visitante.

- O professor Dimitrov já havia sido meu orientador no mestrado e também o está sendo agora no doutorado. Tenho vindo praticamente todos os dias ao IMPA, onde, no semestre passado, cheguei a fazer algumas matérias. Neste semestre, optei por me dedicar integralmente à elaboração da minha tese, na área de Análise Harmônica, e fico mais na biblioteca e na sala de estudos – diz.

Willian está morando em um albergue na Praia de Botafogo, Zona Sul da cidade. Para ele, isso tem sido ótimo, porque lhe tem dado oportunidade de conhecer muita gente, tanto do Brasil quanto do exterior. Nos fins de semana, não é incomum ele ciceronear alguns “novos amigos estrangeiros” pela Lapa e por outros lugares interessantes do Rio.

O estudante fez o mestrado em Matemática na Unesp entre 2011 e 2013, e “emendou logo no Doutorado”. Já a licenciatura, entre 2008 e meados de 2011, foi realizada em outra cidade, em Dourados (MS), na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

Nesta época, chegou a dar algumas aulas para turmas de Ensino Fundamental e Ensino Médio de escolas públicas como estagiário e como professor substituto. Gostou da experiência, mas preferiu seguir na carreira acadêmica.

A possibilidade de fazer uma faculdade de Matemática começou a ser considerada muito antes, quando ele ainda estava no Ensino Fundamental, em uma escola da cidade de Corpus Christi, no Paraguai.

- Nessa escola paraguaia, entre o 7º e 9º anos, tive um professor de matemática muito cativante, o Osvaldo Duarte Fonseca. Hoje vejo que ele foi decisivo na minha escolha alguns anos depois.

Mesmo morando no Paraguai, ele decidiu fazer o Ensino Médio do outro lado da fronteira, na Escola Estadual Guimarães Rosa, na cidade de Sete Quedas (MS), para poder participar da OBMEP.

- Os colegas comentavam que haveria no Brasil, em 2005, a primeira edição de uma olimpíada de matemática voltada para as escolas públicas, e eu me interessei, porque já gostava muito da matéria e também porque achava que um bom resultado na competição poderia abrir portas para mim. Entrei na Guimarães Rosa no 1º ano do Ensino Médio, fiz as duas provas da olimpíada e ganhei a medalha de ouro. Fui o único medalhista da escola – conta.

Em 2006, no 2º ano, Willian conquistou uma medalha de prata na OBMEP e participou da 1ª edição do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC), destinado aos medalhistas de 2005. No 3º ano, na 3ª edição da Olimpíada, voltou a ganhar uma medalha de ouro.

- Queria me despedir bem da OBMEP. Me preparei bastante e fui o quinto melhor colocado do nível 3 (Ensino Médio) em todo o país.

Em sua avaliação, a participação na OBMEP e, principalmente no PIC, foi fundamental na sua vida escolar.

- Passei a ter contato com o ambiente universitário e isso faz muita diferença para um garoto que vem de uma família humilde de uma cidade pequena, já que traz não apenas novos conhecimentos, mas também confiança. Um dos maiores desafios da vida é tentar encontrar o que podemos fazer de melhor, e o PIC me ajudou demais nesse sentido. No programa, eu via uma matemática diferente, que me motivava ainda mais.

Do Paraná para o Paraguai

Willian nasceu em Cruzeiro do Oeste (PR), no noroeste paranaense, cidade com 21 mil habitantes. Filho único, morou durante a infância e adolescência com a mãe, os avós maternos e quatro tios.

- Fui criado pela minha mãe, que trabalha como empregada doméstica e, às vezes, também pega alguns serviços de costureira.

Quando estava com quatro anos, a família se mudou para o Paraguai, para a cidade de Corpus Christi, próxima à fronteira com o Brasil.

- Meu avô achou que haveria mais trabalho para os cinco filhos no Paraguai. Ouvíamos boatos de que era fácil comprar terras por lá, o que acabou se mostrando irreal com o tempo. A ideia era literalmente recomeçar, em uma terra nova, onde tudo levava a crer que haveria mais oportunidades.

Em Corpus Christi, morou numa casa bem simples, da qual guarda boas lembranças. Começou a estudar tarde devido a problemas parar tirar documentos. Somente entrou na escola com quase oito anos – quatro anos depois de a família se instalar no Paraguai.

- Corpus Chisti é mais um povoado do que propriamente um município. Não deve ter mais do que quatro mil habitantes, incluindo os moradores da área rural e das reservas indígenas.

O avô era pedreiro e balaieiro, ou seja, produtor de balaios (cestos que podem ser de palha, de bambu-taquara ou de outros materiais).

- Os balaios foram a principal fonte de renda da nossa família ao longo da minha infância e início da adolescência. Com o tempo, nós, em casa, meio que “industrializamos” o processo - cada qual se tornou especialista em uma das fases de produção. Eu praticamente só trançava. Acho que desonrei a família por ser o único que até hoje não sabe fazer um balaio completo, do começo ao fim.

Willian conta que eram muito comuns, por conta da produção dos balaios, os cortes nas mãos e as espetadas nas pernas (“a taquara corta muito”). Mas o que mais o incomodava eram as dores nas costas em virtude da postura adotada no trabalho.

- A parte boa é que eu podia fazer aquilo sentado e à sombra, enquanto muitos outros trabalhadores na minha cidade estavam enfrentando o sol forte na lavoura.

Desde muito cedo, Willian sempre trabalhou para ajudar a família. Dos cinco aos oito anos, ajudava, principalmente, na produção dos balaios. Entre os oito e os 15, trabalhou como vendedor de salgados, doces e sorvetes pelas ruas de Corpus Christi.

- Eu pegava esses produtos com alguns donos de restaurantes e lanchonetes e os vendia na cidade. Em algumas ocasiões, aproveitava a gratuidade dos ônibus para crianças para embarcar neles e vender as mercadorias em povoados vizinhos.

Até que mais ou menos aos 15 anos, ele passou a trabalhar como atendente em pequenas lojas que havia na cidade paraguaia.

- Eu gozava de muita confiança na cidade, e os comerciantes sabiam que podiam deixar a loja comigo, deixar o caixa sob a minha responsabilidade. Daí eu conseguir me empregar com mais facilidade. No Paraguai, tínhamos que trabalhar muito para conseguir fazer algum dinheiro.

Entre os 17 e os 18 anos, no início do Ensino Médio, Willian foi trabalhar em “sacaria”, um serviço comum na região de fronteira, segundo ele.

- Nos períodos de safra, éramos pagos para descarregar os caminhões que iam do Paraguai para o Brasil e colocar a carga em outros caminhões.

Nessa época, ele estudava de manhã e trabalhava à tarde – e às vezes à noite também. Por conta do excesso de peso que tinha de transportar de um veículo para o outro, acabou tendo uma lesão em uma vértebra, o que, por muito tempo, lhe rendeu muitas dores.

- Tive que fazer um tratamento com muitas sessões de fisioterapia, mas depois fiquei bem.

O Ensino Médio no Brasil e a bolsa do PIC

A partir do segundo ano do Ensino Médio, o rapaz passou a receber a bolsa do PIC, no valor de R$ 100.

- Esse valor, para nós, era dinheiro. Para se ter uma ideia do que representava: minha mãe, como empregada doméstica, ganhava um pouco mais do que isso por mês. O PIC era como se eu tivesse uma segunda mãe trabalhando.

Ninguém da família – nem a mãe, os avós e os quatro tios – conseguiram completar o Ensino Fundamental. E Willian já havia chegado ao 2º ano do Ensino Médio e ainda ganhava uma bolsa para estudar matemática.

- Eu conciliava a escola de manhã com o trabalho à tarde e à noite. Tive um destino diferente. À medida que fui participando da OBMEP e do PIC, no Ensino Médio, pude estudar cada vez mais e trabalhar cada vez menos. E minha mãe, passando a ver que eu realmente poderia ter um futuro melhor por meio dos estudos, passou a pegar mais trabalho para que eu pudesse ficar em casa estudando.

Na Escola Estadual Guimarães Rosa, Willian também teve professores de matemática marcantes, em especial o professor Sebastião Rosa.

- O Sebastião era o acolhimento em pessoa. Se eu voltasse hoje na Guimarães Rosa, para visitar ou para dar aulas, seria como voltar para casa. Minhas lembranças do Colégio Nacional de Corpus Christi remetem muito à disciplina, ao respeito que os alunos em geral tinham pelos professores. E da Guimarães Rosa guardo um enorme sentimento de calor humano, de acolhimento por parte da diretoria e dos professores.

Não foram só os professores das escolas de ensino fundamental e médio citados que tiveram influência no apreço do rapaz pela Matemática. Em casa, Willian convivia com familiares simples, de baixa escolaridade, mas um dos tios vivia transportando-o para o mundo da “matemática intuitiva”.

- Apesar de não chegar a concluir o Ensino Fundamental, ele tinha uma “cabeça aritmética”. Gostava de umas brincadeiras matemáticas e, certa vez, escreveu num papel um problema desafiador e disse que queria ver o meu professor resolvê-lo. É claro que eu levei a questão para a escola e o professor Osvaldo o resolveu algebricamente, com os X e Y. Fiquei fascinado com aquilo.

A mãe, Dona Célia Aparecida de Oliveira, também desempenhou um papel importante no desenvolvimento do futuro matemático:

- Minha mãe tinha um método muito próprio de me incentivar nos estudos. Ela me passava confiança. Acompanhava o que acontecia comigo na escola, mas à distância. Eu me sentia amado e ao mesmo tempo mais independente.

O transporte para a escola e os polos do PIC no Brasil

Como optou por fazer o Ensino Médio no Brasil, em Sete Quedas, Willian tinha que percorrer uma distância de aproximadamente 30 quilômetros de casa, em Corpus Christi, até a escola.

- Havia um senhor com um ônibus bem velho que cobrava 30 mil guaranis de cada aluno para nos levar até a escola. A distância não era muito grande, mas a estrada era péssima, e o percurso acabava levando uma hora e meia ou até mais. E não era só o problema dos buracos e atoleiros. Por ser muito velho, o ônibus também quebrava com frequência. Assim, se o ônibus atolasse ou quebrasse na ida, voltávamos para casa e perdíamos a aula; se na volta, completávamos o caminho até em casa andando, e era uma farra. Nos divertíamos muito – brincávamos (e brigávamos também), paquerávamos as meninas...

Para ir aos encontros (aulas presenciais) do PIC, Willian saia na sexta à noite, pegava dois ônibus – um no Paraguai e outro no Brasil – e dormia em um hotel na cidade onde ficava o polo – que variou ao longo dos três anos em que participou do programa.

A volta, segundo ele, era um pouco mais complicada, já que, aos domingos, o ônibus no lado paraguaio não circulava.

- Eu pegava o ônibus até a fronteira e depois ia a pé para casa. Levava umas cinco horas, e isso porque, em alguns trechos, dava uma corridinha.

Mas isso foi bem no começo do PIC. Com o intuito de ajudar o rapaz a “transpor” com mais facilidades as “barreiras geográficas”, os professores Sônia Regina Di Giacomo (ex-coordenadora de Iniciação Científica no Mato Grosso do Sul e atual coordenadora dos Clubes de Matemática da OBMEP) e Sidnei Azevedo de Souza lhe deram de presente uma bicicleta, que passou a ser usada para o transporte no lado paraguaio nos dias de ida e vinda do PIC.

- Foi um presentão. A bicicleta era linda e me ajudou muito. Da fronteira até a minha casa, eu levava aproximadamente uma hora e meia pedalando, quase o mesmo que o ônibus, que enfrentava a buraqueira toda.

Ao se lembrar do presente ganho dos dois professores, Willian reflete sobre sua trajetória e as pessoas que encontrou ao longo dela.

- Não tenho nada do que reclamar na vida, que tem sido muito generosa comigo. Desde o Ensino Médio, sempre encontrei muitas pessoas boas, de quem me tornei amigo.

Com 20 anos, Willian foi morar em Dourados (MS), para cursar licenciatura em Matemática na UFGD.

- Fui morar na casa do professor Sidnei, de quem sou amigo até hoje, e logo arrumei emprego numa pizzaria, onde fazia de tudo um pouco.

Logo após uma cirurgia de apendicite supurada, que quase lhe custou a vida, foi morar por cerca de seis meses com um casal de professores - Edson e Lilian Milena Rodrigues de Carvalho - que conheceu na universidade.

- Com estes dois professores e com os que tive no PIC e na escola Guimarães Rosa, aprendi muito, principalmente sobre o valor de dar sem querer receber nada em troca. E com o Edson aprendi, ainda, a apreciar um bom destilado.

A medalha que falta

Hoje, além de concluir o doutorado e se tornar um pesquisador, Willian tem outro projeto, que, se por um lado não tem nada a ver com o mundo acadêmico, por outro diz muito do seu “espírito olímpico”.

Em Corpus Christi, o aniversário da cidade é comemorado com uma grande festa – para a qual as pessoas se preocupam até hoje em ir bem vestidas – e com uma corrida tradicional de cerca de 15 quilômetros.

- Desde criança eu era vidrado nessa corrida, e havia um cara que sempre a ganhava. E eu pensava: se ele pode, porque não eu?

Com 15 ou 16 anos, nos anos finais do Ensino Fundamental, Willian chegou a treinar e participar da competição, mas não conseguiu chegar à frente do “cara” que sempre vencia.

Hoje ele se lembra da festa, da corrida e da cidade de Corpus Christi com uma saudade que não disfarça, e conta que, nessa temporada atual de Rio de Janeiro, costuma correr três vezes por semana na praia ou no Aterro do Flamengo.

Além disso, não dispensa uma partida de futebol (outra grande paixão, desde sempre) duas vezes por semana com colegas e funcionários do IMPA e, sempre que possível, nos campos do Aterro.

- Quando sinto que estou no melhor da minha forma, com o maior gás nas corridas e nas peladas com os colegas, lembro logo da competição em Corpus Christi e penso: um dia ainda volto lá e ganho aquela corrida.




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