De medalhista a pesquisador: ‘Tudo por causa da OBMEP’, diz Ramos

 

A abertura das atividades culturais da Cerimônia Nacional de Premiação da 20ª OBMEP 2025 teve como protagonista uma história que traduz o impacto da olimpíada ao longo de duas décadas. Pesquisador do IMPA, professor do IMPA Tech e medalhista da OBMEP, João Pedro Ramos presidiu a primeira palestra do evento, intitulada “Por que e como a natureza é preguiçosa?”. Sua presença no palco simbolizou um marco especial para a instituição: Ramos é o primeiro pesquisador do IMPA egresso da OBMEP, exemplo de como a olimpíada pode transformar o talento de jovens estudantes em carreiras científicas de excelência. 

“É um grande prazer receber vocês todos aqui nessa manhã de segunda-feira. É um grande prazer receber vocês e um prazer ainda maior apresentar o palestrante desta manhã. Não tem muito tempo, ele estava sentado aí onde vocês estão sentados hoje. O João Pedro Ramos, meu colega do IMPA, foi medalhista da OBMEP cinco vezes, três medalhas de prata e duas de ouro. João Pedro tem uma carreira brilhante, terminou junto com a graduação da UFRJ, em 2016. Fez doutorado na Alemanha. Hoje, ele é pesquisador do IMPA, professor do IMPA Tech”, contou Jorge Vitório Pereira, diretor-adjunto do IMPA e gerente de Olimpíadas do Instituto. 

Ramos iniciou a palestra recordando sua participação na cerimônia anos atrás e ressaltando o papel decisivo da OBMEP em sua formação acadêmica e pessoal. “A verdade é que eu não estaria aqui se não fosse a OBMEP. Essa palestra é uma homenagem não só à Olimpíada, como a vocês, ao esforço de vocês e a essa Cerimônia.”

O pesquisador relembrou a conquista da primeira medalha, a participação no PIC (Programa de Iniciação Científica Jr.) e o primeiro contato com o IMPA durante os treinamentos olímpicos. Foi nesse período que surgiu o sonho de um dia integrar o quadro de pesquisadores do Instituto. 

“Em 2011, 2012, que conheci o IMPA pela primeira vez. E foi amor à primeira vista. Na primeira vez que eu pisei no IMPA, eu pensei: tenho que trabalhar aqui um dia. Então, todo dia que eu chego para trabalhar, eu posso dizer que eu olho para aquele lugar e estou realizando um sonho. Um sonho de um jovem de 15, 16 anos.”

A partir da OBMEP, Ramos construiu uma trajetória acadêmica internacional. Após concluir a graduação em Matemática na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizou o doutorado na Alemanha, pós-doutorado na Suíça, passou por Portugal e retornou ao Brasil como pesquisador do IMPA. Ao tratar do percurso, destacou que as oportunidades abertas pela olimpíada extrapolaram a formação científica. “O OBMEP além disso me levou para vários lugares. E com isso eu ganhei vários amigos, eu aprendi vários idiomas, conheci várias culturas. Tudo isso por causa da Olimpíada de Matemática.”

Antes de mergulhar nos problemas matemáticos que guiariam a palestra, ele deixou uma mensagem aos medalhistas. “Aproveitem essa experiência. As portas que a OBMEP abre para vocês são muitas. Vocês talvez ainda não saibam o quanto de experiências, o quanto de oportunidades que vocês têm e que vocês terão por causa da Olimpíada de Matemática.”

Da fundação de Cartago ao cálculo de variações

A partir da provocação “Com que frequência vocês pensam no Império Romano?”, o palestrante conduziu os estudantes por uma viagem que passou pela Antiguidade, pela geometria clássica e por problemas que ajudaram a construir áreas inteiras da matemática moderna.

O ponto de partida foi a lenda da fundação de Cartago. Segundo a narrativa, a princesa Dido recebeu do rei local a quantidade de terra que conseguisse cercar com um couro de boi. Ao cortar o couro em tiras finíssimas, ela delimitou uma região muito maior do que se imaginava. A história levou à pergunta central do chamado problema isoperimétrico: qual é a figura que envolve a maior área possível para um perímetro fixo?

Com argumentos geométricos inspirados nos trabalhos de Jakob Steiner, Ramos mostrou como a matemática demonstra que o círculo é a solução ótima desse problema. A partir daí, a palestra avançou para o cálculo de variações, área de pesquisa do  palestrante. O campo busca responder quais formas, trajetórias ou funções maximizam ou minimizam determinadas quantidades — uma ideia presente em diversos fenômenos naturais.

Entre os exemplos apresentados estavam a forma esférica das bolhas de sabão, a braquistócrona — curva que descreve o caminho de descida mais rápido entre dois pontos — e a propagação da luz, descrita pela Lei de Snell.

Em todos os casos, destacou Ramos, a natureza parece seguir soluções ótimas, escolhendo caminhos que minimizam esforço, tempo ou energia. Dessa abordagem surgiu a pergunta que dá título à palestra: afinal, a natureza é preguiçosa? A resposta apresentada aos estudantes foi que muitos fenômenos naturais podem ser compreendidos justamente por meio de princípios de otimização. Seja no círculo que maximiza uma área, na esfera que minimiza uma superfície ou na trajetória percorrida pela luz, a matemática revela como a natureza frequentemente “escolhe” as soluções mais eficientes.

Inspiração para o futuro

Entre os estudantes presentes, a palestra foi recebida como uma demonstração concreta das oportunidades que podem surgir a partir da OBMEP. Participando pela primeira vez da Cerimônia, João Pedro Bezerra destacou o impacto da apresentação. “A palestra do professor João Ramos foi uma inspiração para mim, foi ótima. Aprendi muitos problemas matemáticos legais. Penso em seguir na carreira matemática, fazer mestrado, doutorado, então foi bem legal.”

Participante de sua segunda Cerimônia Nacional, Camila Oliveira, de Minas Gerais, ressaltou a identificação com a trajetória do pesquisador.

“O professor começou falando sobre todos os caminhos que a matemática permitiu a ele, inclusive o casamento, que foi graças à matemática e ele começou na OBMEP. Eu me identifico um pouco com isso porque foi por meio da OBMEP que eu conheci muitos dos meus melhores amigos da vida. São pessoas que caminham comigo desde que eu tinha 12, 13 anos e eu tenho a oportunidade de reencontrar em cerimônia. Pretendo seguir a área da matemática, das ciências exatas, eu gostei muito do que ele falou sobre otimização, estamos avançando no cenário da tecnologia, logo isso é muito importante. Precisamos de caminhos mais rápidos e eficientes no meio. O trabalho dele tem muito a contribuir com o que a gente faz e para o caminho que o mundo está tomando.”

Ao abrir as atividades culturais da Cerimônia que celebra os 20 anos da OBMEP, Ramos mostrou aos medalhistas que a olimpíada pode ser muito mais do que uma competição. Sua própria trajetória — de estudante medalhista a pesquisador do IMPA — é um incentivo de como a matemática pode transformar vidas e criar oportunidades capazes de atravessar fronteiras, carreiras e gerações.




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